sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

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Carta n.º 56
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É Natal. E seguramente a época mais bela do ano. Tudo se conjuga para que em tempo natalício nos interroguemos sobre o que de mais importante existe na vida. Cada pessoa encontra possivelmente a sua resposta. Mas muito provavelmente a maioria de nós encontrará a resposta na atracção exercida pela riqueza da simplicidade da nudez do Menino Jesus no momento do nascimento. Comum a todos os seres humanos.
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Reis Magos vão a caminho de Belém...

É talvez por isso que o presépio nos encanta tanto. Particularmente quando ele respeita a singeleza e o significado que lhe são intrínsecos. Na recordação do presépio, que toda a gente teve e em que à semelhança do Menino Jesus foi a figura central, sentimo-nos todos iguais, irmãos e felizes.
Porém, o rodopio estonteante da luta da vida afasta-nos frequentemente do humanismo que nos une no momento do nascimento. E lança-nos numa corrida louca. Competindo ferozmente para cada um de nós conseguir ser mais importante que os conterrâneos, os vizinhos e os concidadãos.
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E pastorinhos também...

O acervo de importância, com que cada pessoa procura encher o saco de prosápia que transporta ao longo da vida, vai aumentando com o correr dos anos. O saco acaba por ficar tão volumoso e pesado que, às tantas, temos de o arrastar penosamente. Mas, cegos e surdos a todo o entendimento, teimamos em continuar a enchê-lo. Desmedida e irracionalmente.
Frequentemente também juntamos à prosápia hábitos de produção e consumo irresponsáveis. Até que para muitos de nós, já carregados de anos cheios de nada e apoiados numa bengala, chega um momento em que, entre outros desfechos, num dado dia de Natal reencontramo-nos na contemplação de um presépio.
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Presépio da Sé Cadetral de Viseu - Hoje!

No decurso do referido absorvimento faz-se luz na nossa inteligência: afinal, o reencontro da nossa felicidade está no regresso à simplicidade daquele presépio. E ao humanismo que ele sintetiza. Temos que nos descartar do saco que penosamente arrastamos há demasiado tempo. O mais depressa possível.
Louvado seja o Menino Jesus. Ele representa todas as crianças que nasceram no passado, nascem no presente e nascerão no futuro. E é um hino à vida e à Terra que a engendrou e suporta. Assim sendo, as questões ambientais e a protecção à criança e à família não devem impreterivelmente ocupar o lugar cimeiro das preocupações da humanidade?

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

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Carta n.º 55
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Há dias, dissemos entre outras coisas que em Viseu já se respirava por toda a cidade um certo clima natalício. E que as iluminações próprias da quadra festiva do Natal já estavam montadas. Assim era. Estavam montadas mas ainda não estavam a funcionar. Entretanto, foram ligadas. Anteontem à noite fomos ver o efeito e tirar algumas fotos. Começámos na Av. 25 de Abril. No sítio em que esta artéria bifurca com a Av. Calouste Gulbenkian. Onde existe uma rotunda. Dali descemos ao Rossio e, enquanto fazíamos clichés, caminhávamos e contemplávamos a beleza dos conjuntos iluminados.
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Rossio


Admirámos a seguir a Rua Miguel Bombarda e a Av. Alberto Sampaio, vimos a Rua da Paz, descemos a Rua Alexandre Lobo e apreciámos demoradamente o cruzeiro do Largo de Santa Cristina revestido de lâmpadas. Ladeado por um arranjo de luzes representando: S. José e o seu inseparável bordão; Nossa Senhora; e o Menino Jesus deitado sobre as palhinhas da manjedoura de Belém. O conjunto pretende representar o presépio. Ao qual nós mentalmente juntamos a vaquinha, o jumento e todas as outras figuras e imagens guardadas no mais profundo do nosso espírito. Onde guardamos também tantas outras recordações de um tempo passado, que não volta mais.
. Av. Alberto Sampaio
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Percorremos também a Rua Formosa enfeitada em todo o seu comprimento pela passadeira encarnada a que aludimos há dias. Encontrámos tudo muito bonito. Beleza potenciada pelas montras devidamente ornamentadas. Com produtos e luzes. Muitas luzes! E finalmente outra vez no Rossio. Onde, para além das chamadas Casinhas de Natal, é desde há anos armado um presépio tradicional. Ali, para além da Sagrada Família, vemos pastores, cordeirinhos e os Reis Magos. Carregados de presentes os Reis Magos parecem caminhar apressadamente. Ansiosos por oferecerem as suas reais prendas ao Menino Jesus. E voltarem aos seus países. Para junto dos seus súbditos e das suas famílias. Só em família, o Natal é verdadeiramente Natal.´
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Largo de Santa Cristina

Sobre a noite de Natal, o Almanaque de Lembranças Luso-brasileiro para o ano de 1863 publica um texto de António Feliciano de Castilho. De que transcrevemos a seguinte passagem:
“Noute de Natal, quem te não ama! Noute das Virgens e das mães! dos meninos e dos velhos! dos camponezes e dos soberanos! noute dos anjos e dos homens! qual será o coração, que tu não alvoroces?!”

Para todos, Feliz Natal!

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

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Carta n.º 54
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O Rio Pavia passa em Viseu. É um afluente do Rio Dão e nasce em Mundão. Como sucede com muitos outros cursos de água do nosso país, no Verão quase seca. No Inverno, se a pluviosidade for grande, o Pavia transforma-se de cordeirinho em leão. Não faltando sequer o rugido ameaçador. À semelhança do Rei da Selva.
Nos velhos jornais, que se publicaram antigamente na cidade de Viriato, não faltam referências ao rio que a banha. E aos momentos em que, engrossado pela forte precipitação, saía do leito e inundava os campos em redor.
Em tais ocasiões, muitos viseenses não resistiam a dar um salto à zona da Ribeira para darem uma olhadela. E de volta à cidade, instados pelos vizinhos e conhecidos, comentavam: “O rio vai soberbo.”
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Açude junto à Casa da Ribeira - Hoje.
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Nas épocas estivais, desde que não fossem excepcionalmente secas e as estações intermédias ajudassem, o Pavia em geral conseguia garantir: aos agricultores dos campos marginais água suficiente para a irrigação das culturas; aos moleiros de Vil de Moinhos caudal suficiente para fazerem rodar as mós; e aos viseenses interessados açudes com água bastante para pescarem, nadarem ou darem umas passeatas de barco. Neste caso, acompanhados de amigos e em alguns casos das conversadas, fazendo-se mutuamente promessas de amor eterno. Com algum tempero de versos. Isto em relação aos mais prendados de espírito.
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Poldras do Pavia - Hoje.

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Mas o Pavia também foi não poucas vezes motivo de conflitos. A água nem sempre era repartida com a necessária justiça. Anos havia em que escasseava drasticamente não chegando para todos. Em tais horas do mafarrico, a água era então disputada violentamente. Muito provavelmente algumas vezes de sachos cruzados no ar.
Na memória colectiva está ainda vivo o conflito que há séculos opôs os moleiros de Vil de Moinhos e os donos das courelas que bordejavam o Pavia a montante daquela povoação: os agricultores retinham a água nas açudes destinando-a exclusivamente às regas; os moleiros precisavam da água para moer. Não ausência de acordo, os moleiros armados de enxada e de outros utensílios do género subiram o Pavia, esbarrondaram quantas açudes encontraram e fizeram correr a água para os seus moinhos.

Açude da Ponte da Azenha - Hoje.

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Perante a acção dos moleiros, é natural que os agricultores não se tivessem quedado serenos de mãos nos bolsos e tivessem reagido. Desconhece-se contudo se houve cabeças partidas. O que se sabe é que a fim de evitar danos mais graves, o assunto foi levado às justiças. E como era usual em casos semelhantes as partes desavindas meteram empenhos.
Os moleiros, às suas influências e caso a decisão judicial lhes fosse favorável, juntaram à sorrelfa a promessa de grandes festejos a S. João.
Segundo a crença dos moleiros, a promessa ao seu santo patrono não caiu em saco roto e a sentença apesar de demorada foi-lhes favorável.
Perante a tão desejada notícia, os habitantes de Vil de Moinhos organizaram uma vistosa e festiva cavalhada, foram a S. João da Carreira agradecer ao seu patrono tamanha graça e daí em diante (1652) todos os anos em 24 de Junho celebram festivamente o acontecimento. A que assistem muitos milhares de pessoas.

domingo, 6 de Dezembro de 2009

Carta n.º 53
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Viseu, Praça do Rossio, esta manhã. O dia tem estado muito chuvoso. Ao fundo, ladeado por um automóvel, vê-se o chamado Comboio Turístico de Viseu. Inaugurado em Junho de 2007, é já um ex libris da cidade.
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Foto: Arlindo de Sousa
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quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

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Carta n.º 52
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Viseu é sempre uma cidade bonita em qualquer época do ano. Em Dezembro ainda é mais encantadora. Por todo o lado, respira-se um certo clima natalício: as iluminações alusivas ao Natal estão montadas; as montras caprichosamente arranjadas exibem os mais variados produtos; e nota-se um movimento acrescido de pessoas a circular em todos os sentidos com uma pressa desusada.
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Rua Formosa

Até Rua Formosa se torna ainda mais atraente com uma passadeira encarnada estendida ao longo de todo o seu comprimento.
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Rossio
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O Rossio de Viseu, uma espécie de sala de visitas da cidade, neste último mês do ano também costuma ser alvo de embelezamento e animação especiais tornando-se ainda mais atractivo. Enfim, é o espírito de Natal que nesta quadra festiva toma sempre conta desta cidade de Viriato.
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terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Carta n.º 51
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Hoje, dia 1 de Dezembro, é feriado nacional. Comemoram-se 369 anos de Restauração da Independência de Portugal.
Como é sabido, mas nunca é demais recordar, em consequência do desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, o nosso país a partir de 1580 ficou unido ao Reino de Espanha sob a coroa dos Filipes.
Perante tão infaustos acontecimentos, muitos portugueses coevos desanimaram julgando ter assistido ao fim definitivo de Portugal como nação independente. O próprio Luís de Camões, autor da admirável obra poética dos Lusíadas e desde então considerado como um dos mais importantes símbolos da identidade portuguesa, triste e amargurado com o desgraçado rumo histórico do país, teria declarado no último instante de vida ocorrido cerca de dois meses antes da perda de independência nacional: “Ao menos morro com a Pátria!”
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Data gravada na base do Padrão da Restauração - Viseu

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Todavia, apesar do vendaval de infelicidade e desânimo que então assolou Portugal, o povo jamais aceitou a capitulação política face à poderosa Espanha como um caso encerrado. No mais recôndito da sua alma acalentou durante seis décadas o fogo da esperança de uma pátria renascida. E a sua esperança, qual sonho imorredoiro e inabalável, acabou por se transformar em realidade. Com a ajuda decisiva do Brasil e do restante espaço então português pelo mundo repartido.
No 1.º de Dezembro de 1640, Portugal, país pluricontinental e multicultural em resultado dos esforçados e empolgantes descobrimentos marítimos, voltava a ser um país independente e retomava com redobrado vigor a sua missão histórica na Europa e no Mundo.
Desde aquela auspiciosa data muitos trabalhos e dificuldades foi preciso colectivamente enfrentar. Mas tudo conseguimos vencer, conseguindo frequentemente com vontade, sabedoria e conhecimento transformar as situações adversas e aparentemente invencíveis em oportunidades únicas de sucesso.
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Pormenor do Padrão da Restauração - Viseu

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Hoje, ao mesmo tempo que comemoramos a Restauração da Independência, termina a XIX Cimeira Ibero-Americana, que, agrupando 22 países ibero-americanos, este ano se realizou no nosso país sob o tema da inovação e do conhecimento. E tem lugar na Torre de Belém a cerimónia a assinalar a entrada em vigor do tratado reformador da União Europeia.
Uma das conclusões a retirar de tanta azáfama política, é que hoje o nosso país está consciente de que a defesa da independência assenta em novos conceitos. Muito diferentes dos do passado. Apontando para um conjunto de objectivos em que podemos destacar a escrupulosa garantia dos direitos humanos. E de um espaço europeu de valores, liberdade, solidariedade e desenvolvimento. Actualmente agrupando 27 países. Tudo isto sem prejuízo dos nossos anseios e desígnios nacionais mais intrínsecos e inalienáveis. Um dos quais tem a ver com a nossa missão histórica específica, neste momento partilhada com os oito países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). De que fazemos parte e em que todos somos solidária e empenhadamente agentes e beneficiários.
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Padrão da Restauração na Praça Tenente Miguel Ponces - Viseu
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Voltando ao acontecimento nacional que hoje comemoramos, a Restauração da Independência de Portugal em 1640 proporciona-nos ainda o seguinte ensinamento histórico: as nações podem morrer, mas também são dotadas de perenidade se os seus cidadãos assim o quiserem. Basta que jamais deixem de sonhar. E persistentemente se esforcem denodadamente por transformar o sonho em realidade. Este princípio, que foi válido há 369 anos, continua a ser válido hoje. Só é preciso que colectivamente o queiramos. O nosso país (e tudo o que representa) precisa de nós. O que é que cada um de nós pode fazer por ele – o nosso amado Portugal?